sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Círculo vicioso


Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
 "Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela 
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
 Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: 

 "Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
 Que, da grega coluna à gótica janela, 
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela" 
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

 "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, 
aquela Claridade imortal, que toda a luz resume"!
 Mas o sol, inclinando a rútila capela: 

 Pesa-me esta brilhante auréola de nume... 
Enfara-me esta luz e desmedida umbela... 
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...

Machado de Assis

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