sábado, 22 de dezembro de 2012

Irmão Querido

                                                                         
                                                                         Mano,
                                                    és o meu companheiro no barco da vida,
és o sal e eu a água,
és o sol e eu a lua,
és a metade que eu não sou,

                                                                           Mano,
                                                         és o leme quando estou á deriva,
                                                            és o sorriso na minha mágoa,
                                                             és o guardião da minha rua,
                                                          és a presença quando não estou.

                                                                           Mano,
                                                 tenho saudades de quando brincávamos,
                                                           eras o indio e eu o cowboy,
                                                             eu era o bom e tu o vilão,
                                                           eras metade da minha alegria,

                                                                          Mano,
                                                   tenho saudades de quando sonhavámos,
                                                          queriamos ser um super-herói,  
                                                         queriamos ter o mundo na mão,
                                                         queriamos viver nossa fantasia.

                                                                          Mano,
                                                      hoje só me importa que estejas bem,
                                                          que sejas feliz em teu caminho,
                                                        e seja qual for aquele que seguires,
                                                         só quero que tenhas a maior sorte,

                                                                           Mano,
                                                            gosto de ti como ninguèm,
                                                        tens meu amor e tens meu carinho,
                                                        tens tudo de mim sem nunca pedir,
                                                         és meu irmão,na vida e na morte.

                                                                         Poema dedicado e escrito para o meu unico irmão

                                            Almada, 27 de agosto de 2008 © Paulo Lourenço “Ramiro de Kali”

domingo, 9 de dezembro de 2012




Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário. 
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas. 
Se achar que precisa voltar, volte! 
Se perceber que precisa seguir, siga! 
Se estiver tudo errado, comece novamente. 
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a. 
Se perder um amor, não se perca! 
Se o achar, segure-o!

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A importância da amizade




A amizade é muito importante
Para a saúde de qualquer ser humano.
Ninguém vive sozinho!
Ser amigo é ser companheiro.
Guerreiro. É acreditar no outro,
e incentivá-lo com bravura nas
horas difíceis da vida.
Ser amigo é ser escoteiro.
Entender quando o outro não está bem.
Vibrar com as suas vitórias, mas sem
Exigir reciprocidade, porque a amizade
É dom natural. Vem de mansinho,
Sem exigir, sem cobrança,
é um bem-estar muito grande na vida saber com quem contar.
Desabafar os problemas.
Dividir as alegrias.
Repartir as tristezas.
Gozar de momentos Inesquecíveis.
Rir juntos.
A amizade é um dos sentimentos mais preciosos da Vida.
Não existe ciúme entre amigos.
Somente Compreensão.
Não existe disputa.
Apenas sonhos diferentes.
Apoio.
Quem tem amigo verdadeiro, nunca está só,
Pois sabe que, em todos os momentos da vida,
pode Contar com uma mão firme para segurar e apertar,
Trocando boas energias para seguir sempre em frente,
na doce tranquilidade da verdadeira amizade.

(Antonio Marcos Pires)

domingo, 25 de novembro de 2012

Amizade



Amigo não é aquele
Que nos faz sorrir com mentira 
E sim aquele que
Nos faz chorar com verdades. 
Amigo não é aquele que 
Seca suas lágrimas 
E sim aquele que 
Não as deixa cair. 

Amigo não se compra, 
Não se aluga, não se vende... 
Nasce e morre com a gente. 

A única amizade que vale 
É aquela que nasce sem nenhum motivo!

(Autor Desconhecido)

(Esse é dedicado as minhas melhores amigas s2)

Canção da América



Amigo é coisa para se guardar
 Debaixo de sete chaves 
Dentro do coração 
Assim falava a canção que na 
América ouvi 
Mas quem cantava chorou 
Ao ver o seu amigo partir 
Mas quem ficou, no pensamento voou 
Com seu canto que o outro lembrou 
E quem voou, no pensamento ficou 
Com a lembrança que o outro cantou 
Amigo é coisa para se guardar 
No lado esquerdo do peito 
Mesmo que o tempo e a distância digam "não" 
Mesmo esquecendo a canção 
O que importa é ouvir 
A voz que vem do coração 
Pois seja o que vier, venha o que vier 
Qualquer dia, amigo, eu volto 
A te encontrar 
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

(Milton Nascimento)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Soneto ao Sol




Por que tens vestes amarelas
e dedos longos que me alcançam
e pinta o alvorecer em suave aquarela
e seus raios sedutores em mim se lançam?

Que alegria faz teu sorriso tão lindo
num rosto ardente cheio de luz
e o seu calor sempre bem-vindo
aquece minha pele que em fogo reluz?

Minh’alma como imã atrai tua alegria
enquanto todos os males se evaporam
e fica no ar aquela melodiosa sinfonia...

E estonteada eu perco o tino, a direção...
Já nem enxergo aqueles olhos que choram,
entrego-me nos braços desta louca paixão!


O Amor




Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Luís de Camões

Afinal Quem sou eu?




Afinal Quem sou eu? 

Se sou mal eu não sei , 
Se sou boa também não,  
Amigos sei que tenho ... 
Eu tenho de montão 

Afinal Quem sou eu? 

Se Sou rica Se Sou pobre 
Quietinha ou do mal 
Se sou estranha eu não sei 
Se eu sou para normal... 

Se Sou grande ou Pequena 
Se sou forte ou sou fraca 
Se Sou Rei ou rainha 
Ou se eu não sou nada 

Se sou dificil eu não sei 
Se sou facil não entendo 
Se sou ruim não descobrir 
Se sou invisivel estou me vendo 

Afinal, Quem sou eu? 

Sou parte do tudo 
O pedaço que é feito de nada 
Sou aquilo que você tem mais medo 
Por ser o que mais te agrada 

Sou uma sombra sólida 
Um caminho que não tem rumo 
E quando você pensa me achou 
É aí que sumo 

Sou as lágrimas da tempestade 
Com o choro de trovão 
Sou quem te nega um olhar 
Mas te entrega o coração 

Sou mais do que você pensa 
Mas menos do que realmente sou 
Sou quem mais acerta 
Por ser quem mais errou 

Sou só, cheio de amigos 
Acompanhado de solidão 
Sou o que existe de mais real 
Mas que é feito de ilusão 

Sou uma peça nesse jogo da vida 
Um leigo que sabe de tudo 
Sou mais uma cara perdida 
Em busca de paz nesse mundo.

(Autor Desconhecido)

Idoso




Não bata no seu idoso,
Bater nele é um ato criminoso.
Não o ignore nem o trate mal,
Pois pode causar algo fatal.

Ele teve paciência brincando com você por aí,
O que custa agora fazê-lo sorrir?
A fase que ele está passando,
Para você está por vir.

Ele já é um idoso,
Precisa de amor, carinho e afeição,
Não se irrite com ele,
Doe-se de todo o coração!

(Maria Stéfanie)

sábado, 10 de novembro de 2012

Como se ama o calor e a luz querida




Como se ama o calor e a luz querida, 
A harmonia, o frescor, os sons, os céus, 
Silêncio, e cores, e perfume, e vida, 
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem 
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale 
Cantar a voz do trovador cansada: 
O que é belo, o que é justo, santo e grande 
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro, 
Por quanto já sofri, por quanto ainda 
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo. 
O que espero, cobiço, almejo, ou temo 
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas 
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte 
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! 
Esta oculta paixão, que mal suspeitas, 
Que não vês, não supões, nem te eu revelo, 
Só pode no silêncio achar consolo, 
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas

(Gonçalves Dias)

domingo, 4 de novembro de 2012

E tudo mudou...




E tudo mudou... 
O rouge virou blush 
O pó-de-arroz virou pó-compacto 
O brilho virou gloss 
O rímel virou máscara incolor 
A Lycra virou stretch 
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios 
Que virou sutiã 
Que virou lib 
Que virou silicone
A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento 
A escova virou chapinha 
"Problemas de moça" viraram TPM 
Confete virou MM 
A crise de nervos virou estresse 
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter 
A brilhantina virou mousse 
Os halteres viraram bomba 
A ergométrica virou spinning 
A tanga virou fio dental 
E o fio dental virou anti-séptico bucal
Ninguém mais vê...
Ping-Pong virou Babaloo 
O a-la-carte virou self-service 
A tristeza, depressão 
O esparguete virou Miojo pronto 
A paquera virou pegação 
A gafieira virou dança de salão 
O que era praça virou shopping 
A areia virou ringue 
A caneta virou teclado
O long play virou CD 
A fita de vídeo é DVD 
O CD já é MP3 
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email 
O namoro agora é virtual 
A cantada virou torpedo 
E do "não" não se tem medo 
O break virou street 
O samba, pagode 
O carnaval de rua virou Sapucaí 
O folclore brasileiro, halloween 
O piano agora é teclado, também 
O forró de sanfona ficou electrónico 
Fortificante não é mais Biotónico 
Bicicleta virou Bis 
Polícia e ladrão virou counter strike 
Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer 
Lobato virou Paulo Coelho 
Caetano virou um chato 
Chico sumiu da FM e TV 
Baby se converteu 
RPM desapareceu 
Elis ressuscitou em Maria Rita? 
Gal virou Fénix
Raul e Renato, Cássia e Cazuza, 
Lennon e Elvis, 
Todos anjos 
Agora só tocam lira...
A AIDS virou gripe 
A bala antes encontrada agora é perdida 
A violência está coisa maldita! 
A maconha é calmante 
O professor é agora o facilitador 
As lições já não importam mais 
A guerra superou a paz 
E a sociedade ficou incapaz...De tudo. 
Inclusive de notar essas diferenças.

(Luis  Fernando Veríssimo)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Orientação




Um piloto
canhoto
mudou a rota
do seu avião
Vai para o
Oriente
pensando
estar indo
para o
Ocidente.

(Samir Meserani)

Traduzir-se



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira. 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta. 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

(Ferreira Gullar)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Desapego

                                                                                        

                                                         A vida vai depressa e devagar.
                                                                  Mas a todo momento
                                                                penso que posso acabar.

                                                          Porque o bem da vida seria ter
                                                                   mesmo no sofrimento
                                                                         gosto de prazer.

                                                           Já não tenho vontade de falar
                                                               senão com árvores, vento,
                                                                estrelas, e águas do mar.

                                                               E isso pela certeza de saber
                                                             que nem ouvem meu lamento
                                                                nem me podem responder.


                                                                                                                              (Cecília Meireles)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cântico do Calvário


À Memória de Meu Filho
Morto a l l de Dezembro
de 1863.




Eras na vida a pomba predileta 
Que sobre um mar de angústias conduzia 
O ramo da esperança. — Eras a estrela 
Que entre as névoas do inverno cintilava 
Apontando o caminho ao pegureiro. 
Eras a messe de um dourado estio. 
Eras o idílio de um amor sublime. 
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria, 
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto, 
Pomba, — varou-te a flecha do destino! 
Astro, — engoliu-te o temporal do norte! 
Teto, caíste! — Crença, já não vives! 

Correi, correi, oh! lágrimas saudosas, 
Legado acerbo da ventura extinta, 
Dúbios archotes que a tremer clareiam 
A lousa fria de um sonhar que é morto! 
Correi! Um dia vos verei mais belas 
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda 
Fulgurar na coroa de martírios 
Que me circunda a fronte cismadora! 
São mortos para mim da noite os fachos, 
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas, 
E à vossa luz caminharei nos ermos! 
Estrelas do sofrer, — gotas de mágoa, 
Brando orvalho do céu! — Sede benditas! 
Oh! filho de minh'alma! Última rosa 
Que neste solo ingrato vicejava! 
Minha esperança amargamente doce! 
Quando as garças vierem do ocidente 
Buscando um novo clima onde pousarem, 
Não mais te embalarei sobre os joelhos, 
Nem de teus olhos no cerúleo brilho 
Acharei um consolo a meus tormentos! 
Não mais invocarei a musa errante 
Nesses retiros onde cada folha 
Era um polido espelho de esmeralda 
Que refletia os fugitivos quadros 
Dos suspirados tempos que se foram! 
Não mais perdido em vaporosas cismas 
Escutarei ao pôr do sol, nas serras, 
Vibrar a trompa sonorosa e leda 
Do caçador que aos lares se recolhe! 

Não mais! A areia tem corrido, e o livro 
De minha infanda história está completo! 
Pouco tenho de anciar! Um passo ainda 
E o fruto de meus dias, negro, podre, 
Do galho eivado rolará por terra! 
Ainda um treno, e o vendaval sem freio 
Ao soprar quebrará a última fibra 
Da lira infausta que nas mãos sustento! 
Tornei-me o eco das tristezas todas 
Que entre os homens achei! O lago escuro 
Onde ao clarão dos fogos da tormenta 
Miram-se as larvas fúnebres do estrago! 
Por toda a parte em que arrastei meu manto 
Deixei um traço fundo de agonias! ... 

Oh! quantas horas não gastei, sentado 
Sobre as costas bravias do Oceano, 
Esperando que a vida se esvaísse 
Como um floco de espuma, ou como o friso 
Que deixa n'água o lenho do barqueiro! 
Quantos momentos de loucura e febre 
Não consumi perdido nos desertos, 
Escutando os rumores das florestas, 
E procurando nessas vozes torvas 
Distinguir o meu cântico de morte! 
Quantas noites de angústias e delírios 
Não velei, entre as sombras espreitando 
A passagem veloz do gênio horrendo 
Que o mundo abate ao galopar infrene 
Do selvagem corcel? ... E tudo embalde! 
A vida parecia ardente e douda 
Agarrar-se a meu ser! ... E tu tão jovem, 
Tão puro ainda, ainda n'alvorada, 
Ave banhada em mares de esperança, 

Rosa em botão, crisálida entre luzes, 
Foste o escolhido na tremenda ceifa! 
Ah! quando a vez primeira em meus cabelos 
Senti bater teu hálito suave; 
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo 
Pulsar-te o coração divino ainda; 
Quando fitei teus olhos sossegados, 
Abismos de inocência e de candura, 
E baixo e a medo murmurei: meu filho! 
Meu filho! frase imensa, inexplicável, 
Grata como o chorar de Madalena 
Aos pés do Redentor ... ah! pelas fibras 
Senti rugir o vento incendiado 
Desse amor infinito que eterniza 
O consórcio dos orbes que se enredam 
Dos mistérios do ser na teia augusta! 
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos! 
Que se expande em torrentes inefáveis 
Do seio imaculado de Maria! 
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem! 
E de meu erro a punição cruenta 
Na mesma glória que elevou-me aos astros, 
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço! 

O som da orquestra, o retumbar dos bronzes, 
A voz mentida de rafeiros bardos, 
Torpe alegria que circunda os berços 
Quando a opulência doura-lhes as bordas, 
Não te saudaram ao sorrir primeiro, 
Clícía mimosa rebentada à sombra! 
Mas ah! se pompas, esplendor faltaram-te, 
Tiveste mais que os príncipes da terra! 
Templos, altares de afeição sem termos! 
Mundos de sentimento e de magia! 
Cantos ditados pelo próprio Deus! 
Oh! quantos reis que a humanidade aviltam, 
E o gênio esmagam dos soberbos tronos, 
Trocariam a púrpura romana 
Por um verso, uma nota, um som apenas 
Dos fecundos poemas que inspiraste! 

Que belos sonhos! Que ilusões benditas! 
Do cantor infeliz lançaste à vida, 
Arco-íris de amor! Luz da aliança, 
Calma e fulgente em meio da tormenta! 
Do exílio escuro a cítara chorosa 
Surgiu de novo e às virações errantes 
Lançou dilúvios de harmonias! — O gozo 
Ao pranto sucedeu. As férreas horas 
Em desejos alados se mudaram. 
Noites fugiam, madrugadas vinham, 
Mas sepultado num prazer profundo 
Não te deixava o berço descuidoso, 
Nem de teu rosto meu olhar tirava, 
Nem de outros sonhos que dos teus vivia! 

Como eras lindo! Nas rosadas faces 
Tinhas ainda o tépido vestígio 
Dos beijos divinais, — nos olhos langues 
Brilhava o brando raio que acendera 
A bênção do Senhor quando o deixaste! 
Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos, 
Filhos do éter e da luz, voavam, 
Riam-se alegres, das caçoilas níveas 
Celeste aroma te vertendo ao corpo! 
E eu dizia comigo: — teu destino 
Será mais belo que o cantar das fadas 
Que dançam no arrebol, — mais triunfante 
Que o sol nascente derribando ao nada 
Muralhas de negrume! ... Irás tão alto 
Como o pássaro-rei do Novo Mundo! 

Ai! doudo sonho! ... Uma estação passou-se, 
E tantas glórias, tão risonhos planos 
Desfizeram-se em pó! O gênio escuro 
Abrasou com seu facho ensangüentado 
Meus soberbos castelos. A desgraça 
Sentou-se em meu solar, e a soberana 
Dos sinistros impérios de além-mundo 
Com seu dedo real selou-te a fronte! 
Inda te vejo pelas noites minhas, 
Em meus dias sem luz vejo-te ainda, 
Creio-te vivo, e morto te pranteio! ... 

Ouço o tanger monótono dos sinos, 
E cada vibração contar parece 
As ilusões que murcham-se contigo! 
Escuto em meio de confusas vozes, 
Cheias de frases pueris, estultas, 
O linho mortuário que retalham 
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas 
Saudades e perpétuas, — sinto o aroma 
Do incenso das igrejas, — ouço os cantos 
Dos ministros de Deus que me repetem 
Que não és mais da terra!... E choro embalde. 

Mas não! Tu dormes no infinito seio 
Do Criador dos seres! Tu me falas 
Na voz dos ventos, no chorar das aves, 
Talvez das ondas no respiro flébil! 
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe, 
No vulto solitário de uma estrela, 
E são teus raios que meu estro aquecem! 
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho! 
Brilha e fulgura no azulado manto, 
Mas não te arrojes, lágrima da noite, 
Nas ondas nebulosas do ocidente! 
Brilha e fulgura! Quando a morte fria 
Sobre mim sacudir o pó das asas, 
Escada de Jacó serão teus raios 
Por onde asinha subirá minh'alma.

(Fagundes Varela)